Clima adverso, incertezas geopolíticas e poder de compra pressionado devem impactar a cadeia da carne em 2026. Especialista analisa riscos, oportunidades e tendências
O mercado global de proteína animal seguirá exigindo preparo e agilidade das indústrias brasileiras em 2026. De acordo com Wagner Yanaguizawa, analista do Rabobank, quanto maior a presença brasileira no comércio internacional, maior a lista de fatores que podem interferir no desempenho dos embarques.
Entre eles, Yanaguizawa destaca o clima (com maiores chances de um início de ano sob influência da La niña), biossegurança (com destaque para gripe aviária de alta patogenicidade, síndrome respiratória e reprodutiva dos suínos, peste suína africana e língua azul), sustentabilidade (com os importadores cada vez mais exigindo rastreabilidade e redução nas emissões dos GEE no caso da pecuária de corte), e não menos importante, as questões geopolíticas.
Apesar dos desafios, o analista reforça que o país mantém vantagens estruturais. A resposta rápida ao primeiro caso de gripe aviária em granja comercial e o fato de o Brasil ainda ser o único grande exportador livre de enfermidades em nível comercial reforçam essa robustez. “Os protocolos de prevenção adotados tiveram resultados positivos em termos de dispersão do vírus, mesmo sem o uso de vacinação”, salienta.
Consumo interno pressionado
A pressão sobre o poder de compra do brasileiro deve seguir influenciando o consumo em 2026, especialmente no caso da carne bovina. “A expectativa de preços maiores de carne bovina devem reduzir o consumo per capita esse ano no comparativo anual”, explica Yanaguizawa. A competitividade do frango, suíno e pescado pode ganhar força diante da busca do consumidor por proteínas mais acessíveis, movimento já observado em 2025 com a carne de frango. Eventos como Copa do Mundo e eleições podem gerar picos temporários de demanda com destaque para carne bovina, mas não mudam a tendência geral.
Exportações seguem com sinal verde
Para 2026, o Rabobank projeta avanços nos embarques de carne bovina, suína e de frango. A China permanecerá como destino dominante da carne bovina, e no frango, a normalização dos fluxos para o país asiático abre espaço para retomada , mas sem expectativas de grandes aumentos. Mais oportunidades devem ficar por conta dos EAU, Japão, México, Filipinas, Coréia do Sul e Reino Unido,
Já no setor de suínos, as Filipinas se consolidaram como principal destino, representando 25% do volume até outubro de 2025, tendência que deve se manter no próximo ano. Japão, México, Chile, Vietnã e Hong Kong seguem no radar de oportunidades.
Sustentabilidade: exigência crescente
A demanda internacional por produtos com menor pegada de carbono continuará crescendo, pressionando cadeias produtivas a se adaptarem. Se o Brasil quer manter crescentes as exportações deve atender às demandas dos importadores. Wagner Yanaguizawa destaca iniciativas como CCN (Carne de Carbono Neutro) e CBC (Carne de Baixo Carbono), além dos sistemas de integração lavoura pecuária (e/ou floresta) como tendências para continuar atendendo esses mercados. O grande gargalo permanece nos fornecedores indiretos, tema que será posto à prova com a implementação do EUDR (Regulamento Europeu sobre Cadeias de Suprimentos Livres de Desmatamento). “Certamente as indústrias que estiverem mais bem posicionadas em termos de produtividade e eficiência, seja em questões operacionais, compra de insumos, negociação com clientes, devem seguir com as melhores oportunidades”, conclui.
Por: Erika Ventura

