Reciclagem animal: Boa para o meio ambiente e para a economia

Reciclagem animal

Por: Juçara Pivaro

A reciclagem animal consolida-se não apenas como solução ambiental para resíduos do abate, mas como uma atividade estratégica para a produção sustentável de alimentos, geração de energia renovável e fortalecimento da bioeconomia circular no Brasil

Como um dos maiores produtores de proteína animal do mundo, o Brasil vem tratando com responsabilidade ambiental o gigantesco volume gerado no abate de animais. A reciclagem animal vem se consolidando no Brasil como um dos pilares da bioeconomia circular. O setor assume papel estratégico ao transformar materiais que antes seriam descartados — como sangue, vísceras, ossos e gorduras — em insumos de alto valor agregado utilizados em diversas cadeias produtivas.

O setor desempenha uma função essencial dentro da cadeia produtiva brasileira. Além de evitar impactos ambientais e sanitários relacionados ao descarte inadequado de resíduos do abate, a reciclagem animal gera produtos destinados à nutrição animal, pet food, saboaria, higiene e limpeza, biocombustíveis, agricultura e indústria química. Dessa forma, contribui tanto para a economia quanto para a sustentabilidade do agronegócio nacional.

Os números confirmam a importância do setor, em 2025, a reciclagem animal gerou um PIB de R$ 21,13 bilhões no Brasil, evidenciando sua relevância econômica. No período, foram processadas aproximadamente 14,5 milhões toneladas de resíduos do abate de inspeção federal.

Pedro Bittar, presidente do Conselho Diretivo da ABRA
Pedro Bittar, presidente do Conselho Diretivo da ABRA



Desse total, 7,9 milhões de toneladas vieram de ruminantes, 5 milhões de aves, 1,3 milhão de suínos e 230 mil toneladas de pescados.

A partir desse volume, o setor produziu cerca de 3,9 milhões de toneladas de farinhas e 2,2 milhões de toneladas de gorduras de origem animal. Esses produtos abastecem diferentes mercados consumidores. A produção animal responde pela maior parcela da demanda, absorvendo 44,2% do total produzido. Em seguida aparecem os segmentos de pet food, com 16,3%; biocombustíveis, com 13,9%; saboaria, com 10,5%; além de outras aplicações diversas que somam 15,2%.

O Brasil também ocupa posição de destaque no mercado internacional de ingredientes derivados da reciclagem animal. Dados do ComexStat referentes a 2025 mostram exportações de 454 mil toneladas de farinhas e 472 mil toneladas de gorduras de origem animal, enquanto as importações foram significativamente menores.

Para representar o setor, a ABRA (Associação Brasileira de Reciclagem Animal) atua na consolidação do segmento como parte da estratégia da bioeconomia circular no Brasil, deixando de ser apenas uma solução de destinação de resíduos do abate. Sua atuação envolve articulação institucional com órgãos como o Ministério da Agricultura e Pecuária e o Ministério do Meio Ambiente, com foco no marco regulatório e na inserção do setor nas políticas públicas de transição energética, bioinsumos e descarbonização.

A entidade também investe na geração de dados técnicos que comprovam a contribuição do setor para a mitigação das mudanças climáticas, por meio de projetos que quantificam emissões evitadas. Além disso, fomenta pesquisas voltadas à inovação e ao aumento do valor agregado dos produtos, estimulando a sua utilização em cadeias como biocombustíveis, fertilizantes e novos produtos.

Sem a reciclagem animal, os resíduos do abate seriam destinados principalmente a aterros sanitários, incineração ou compostagem. Essas alternativas, em larga escala, gerariam impactos significativos, como aumento das emissões de gases de efeito estufa, contaminação do solo e da água, além da sobrecarga da infraestrutura de gestão de resíduos.

Além disso, os produtos gerados são utilizados como matéria-prima para biocombustíveis e insumos para nutrição animal e agricultura, reduzindo a dependência de recursos fósseis e de culturas agrícolas extensivas, contribuindo para a diminuição do desmatamento, do uso de água e de insumos químicos.


Constante aprimoramento

A reciclagem animal também tem avançado significativamente em termos tecnológicos. O processamento do resíduo do abate animal no Brasil utiliza sistemas modernos voltados à eficiência operacional, biosseguridade e qualidade final dos ingredientes produzidos.

Entre as principais tecnologias empregadas estão os sistemas de cocção contínua e descontínua, que operam com controle rigoroso de temperatura, pressão e tempo, assegurando a inativação de patógenos e a preservação do valor nutricional das matérias-primas. Equipamentos como digestores, prensas mecânicas de alta eficiência, centrífugas para clarificação de gorduras e sistemas de secagem indireta fazem parte das plantas industriais do setor.

O presidente do Conselho Diretivo da ABRA, Pedro Bittar, destaca que a constante qualificação tecnológica das empresas e a capacitação dos profissionais que atuam nas indústrias têm sido fatores decisivos para o crescimento e a modernização do setor. “A ABRA está sempre atenta às demandas apresentadas pelos associados e a qualificação da mão de obra é uma preocupação histórica da entidade. Atualmente, oferecemos diversos cursos de capacitação, como o tradicional ABRA Aqui Tem Qualidade (AATQ), que chega à sua 27ª edição; o ABRA Export, voltado ao mercado internacional; curso de E-commerce; de Operador de Processamento em Reciclagem Animal; o ABRA Capacita, direcionado para vendedores do setor; além do Programa de Auditorias, pioneiro no segmento, que prepara as indústrias para atender às exigências de auditorias nacionais e internacionais”, finaliza Bittar.•

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