Pecuária brasileira avança em sustentabilidade, mas ainda enfrenta desafios de escala e padronização

Estudo da Fundepag destaca avanços em sistemas integrados, métricas de sustentabilidade e intensificação produtiva. Porém, diante dos possíveis impactos ao meio ambiente, devemos fugir da simplificação e apostar na ciência


Por: Erika Ventura

A pecuária brasileira ocupa posição estratégica no abastecimento global de alimentos, mas também está no centro de debates relacionados às emissões de gases de efeito estufa, uso da terra e preservação ambiental. Para especialistas, porém, parte dessas discussões ainda é marcada por simplificações que ignoram a diversidade dos sistemas produtivos e os avanços tecnológicos já em curso no país.

Segundo Afonso Peche Filho, pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), parceiro da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag), um dos principais equívocos é tratar toda a pecuária brasileira como um modelo único.

Afonso Peche Filho, pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas
Afonso Peche Filho, pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas



“Há grande diferença entre sistemas produtivos, regiões, níveis tecnológicos e graus de conformidade ambiental. Também é simplificação afirmar que aumentar a produção significa sempre piora ambiental, sem distinguir emissões por quilo de carne produzida, eficiência produtiva e origem da expansão das áreas”, explica.

O pesquisador destaca ainda que sustentabilidade na pecuária vai muito além da discussão sobre metano. Questões relacionadas ao uso do solo, manejo de água, recuperação de pastagens, rastreabilidade, governança e bem-estar animal também fazem parte do debate técnico.

Apesar dos desafios, Peche afirma que existem evidências concretas de avanços importantes no setor. Entre elas está a continuidade do Plano ABC/ABC+, política pública voltada à agricultura de baixa emissão de carbono, além da expansão dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Segundo dados citados pelo pesquisador, o Brasil já possui aproximadamente 17,4 milhões de hectares em sistemas integrados, modelo considerado estratégico para melhorar a eficiência do uso da terra, diversificar a produção e recuperar áreas degradadas. Outro avanço apontado é a criação de protocolos técnicos mais robustos para mensuração e validação de práticas sustentáveis, como o Protocolo Carne Baixo Carbono (CBC), desenvolvido pela Embrapa. “O ponto científico central é que esses avanços são reais, porém heterogêneos e ainda não universalizados na pecuária brasileira”, ressalta.

A agricultura regenerativa também aparece como uma tendência cada vez mais conectada à pecuária moderna. Na prática, isso envolve sistemas integrados, manejo adequado de pastagens, diversificação produtiva e recuperação do solo. “Com integração e manejo adequado, o sistema pode recuperar solo e pastagem, reduzir erosão, melhorar a eficiência no uso de insumos e aumentar a produtividade por área, bases compatíveis com uma transição regenerativa”, afirma Peche.

No entanto, o pesquisador reforça que o conceito regenerativo não pode ser tratado apenas como discurso de mercado. Segundo ele, é necessário planejamento técnico, monitoramento constante e indicadores mensuráveis de desempenho ambiental e produtivo.

Nesse sentido, a indústria da carne já possui ferramentas e metodologias capazes de comunicar avanços de forma mais técnica e transparente ao mercado consumidor e aos compradores internacionais. Entre os indicadores possíveis estão intensidade de emissões de gases de efeito estufa, produtividade por hectare, recuperação de pastagens, idade de abate, rastreabilidade e conformidade ambiental. Já entre as metodologias, o pesquisador destaca o próprio Protocolo Carne Baixo Carbono, o GHG Protocol Land Sector and Removals Standard e o sistema GLEAM, da FAO. “O ponto decisivo não é apenas ter o conceito regenerativo, mas reportar com indicadores claros, método explícito e verificação independente”, destaca.

Quando o assunto é crescimento da produção aliado à preservação ambiental, o especialista defende que o caminho está na intensificação sustentável. “O equilíbrio depende de produzir mais por área já aberta, com melhor manejo, recuperação de pastagens e sistemas integrados. Mas isso precisa vir acompanhado de governança ambiental, rastreabilidade e controle territorial”, afirma.

Dentro deste cenário, a Fundepag atua como ponte entre pesquisa científica e setor privado, conectando empresas a projetos de pesquisa aplicada, testes, serviços tecnológicos e capacitação. Entre as iniciativas ligadas à cadeia da carne estão projetos desenvolvidos com o Instituto de Zootecnia (IZ), pesquisas em ILPF, provas de desempenho animal e serviços oferecidos pelo Centro de Tecnologia de Carnes (CTC) do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital). Para Peche, a aproximação com frigoríficos tende a crescer à medida que ciência e inovação sejam apresentadas como solução prática para desafios reais da indústria.“A melhor aproximação é apresentar a Fundepag como uma articuladora de soluções científicas para desafios concretos da indústria da carne, unindo linguagem técnica e visão de negócio”, conclui.•

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