Por: Juçara Pivaro
No Brasil, o cenário da aquicultura é extremamente positivo e promissor e algumas espécies de pescados têm evoluído em crescimento de produção
Um pescado que tem destaque especial – a tilápia, atualmente, a principal espécie cultivada no país, apresentou um crescimento médio de 10,3% ao ano nos últimos 11 anos e deve manter esse ritmo na próxima década. Trata-se da melhor série histórica de expansão no consumo de uma proteína animal no Brasil, consolidando a tilapicultura como um dos pilares do agronegócio nacional.
Segundos publicações da FAO a produção da aquicultura ultrapassou a da pesca e, aqui no Brasil, segundo a Embrapa Pesca e Aquicultura, já ocorre o mesmo, sendo a tilápia, atualmente, o pescado mais consumido no Brasil
Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (PEIXE BR) Peixe Br, destaca: “a grande vantagem da aquicultura é que a produção segue diretamente da fazenda para o frigorífico, sem perda de qualidade, no caso da tilápia o peixe chega vivo ao frigorífico, isso faz uma diferença enorme na qualidade do produto que é rapidamente reconhecida pelo consumidor sem a necessidade de explicações, ele percebe ao colocar o produto na boca”.
No Brasil, a produção aquícola é majoritariamente em água doce, com exceção do cultivo de camarão, tradicionalmente realizado no litoral. Entretanto, a tecnologia e o empreendedorismo nacional permitiram trazer o cultivo também para o interior do continente, transformando a aquicultura em um dos principais cases de sucesso do agro brasileiro. Mesmo com o avanço da piscicultura, o consumo de pescado no Brasil tem se mantido estável, girando em torno de 10 kg por habitante/ano. Isso ocorre principalmente devido à redução da oferta de produtos provenientes da pesca extrativa, o que tem equilibrado o mercado.
Cultivo de camarão
Outro destaque é o cultivo de camarão, que vem crescendo de forma significativa, especialmente com a interiorização da atividade no sertão nordestino. Esse movimento revela o perfil empreendedor e resiliente do produtor brasileiro, que tem levado inovação e eficiência a regiões antes consideradas desafiadoras para a produção aquícola.
Para o futuro, as projeções indicam que a tilapicultura continuará crescendo de forma consistente, consolidando-se como uma commodity brasileira de relevância global. Medeiros complementa: “entretanto, o setor enfrenta desafios típicos de quem empreende no país. As regulações governamentais, especialmente nas áreas trabalhista, ambiental e tributária, ainda figuram entre os principais entraves ao desenvolvimento. Superá-los será essencial para garantir que o Brasil continue avançando como um dos líderes mundiais na produção aquícola”.
São Paulo conta com apoio em pesquisas em pescados e no estímulo ao consumo
O estado vem se consolidando como referência nacional em ciência, inovação e sustentabilidade na aquicultura e na pesca, ampliando as oportunidades de mercado e promovendo a segurança alimentar no país
Com objetivo de promover o setor de pescados em São Paulo, o Instituto de Pesca (IP) tem desempenhado um papel essencial na consolidação da cadeia produtiva do pescado em São Paulo, atuando em duas frentes principais: a promoção do consumo e o apoio técnico e científico aos produtores. Eduardo de Medeiros Ferraz, pesquisador científico e assistente técnico da Coordenadoria do Instituto de Pesca, informou as ações que demonstram a participação do IP no desenvolvimento do setor de pescado em São Paulo.
No eixo da promoção do consumo, o IP desenvolve o Programa Pescado para Saúde, iniciativa voltada a incentivar a ingestão de peixes e frutos do mar como parte de uma alimentação equilibrada. O programa baseia-se em pesquisas que analisam os componentes nutricionais de diferentes espécies de pescado e seus efeitos positivos sobre a saúde humana. A partir desses estudos, o IP promove campanhas educativas que traduzem o conhecimento científico em informações práticas e acessíveis à população.
Durante a Semana do Pescado, considerada a maior campanha nacional de valorização do setor, o IP promove o evento “Tem Peixe na Vila”, realizado capital paulista. A ação, que chegou à sua terceira edição, transformou-se em uma verdadeira festa do pescado, oferecendo ao público degustações, oficinas e atividades culturais voltadas à conscientização sobre a importância do consumo regular de peixe e à valorização da aquicultura e da pesca sustentável.
Apoio técnico
Medeiros Ferraz, afirma: “na vertente de apoio à produção, o IP realiza pesquisas aplicadas e desenvolve tecnologias voltadas à prática produtiva, como rações, probióticos, vacinas, sistemas de cultivo e testes de produtos, além de organizar cursos técnico-científicos e dias de campo. O instituto também fornece ovos e alevinos provenientes de suas linhas de pesquisa, contribuindo diretamente com produtores e empresas do setor”.
O interior paulista concentra algumas das principais unidades de pesquisa e produção do IP. No Noroeste do estado, funciona a Divisão Avançada de Pesquisa e Desenvolvimento do Pescado Continental, referência em inovação na maior região produtora de tilápia de São Paulo. Ali, os pesquisadores atuam em temas como melhoramento genético, nutrição, sanidade, manejo em tanques-rede e avaliação da qualidade da água, além de desenvolver o sistema IPAP (Integração da Piscicultura, Agricultura e Pecuária) — um modelo sustentável que integra a produção de peixes com o cultivo de hortaliças e a criação de animais, reduzindo impactos ambientais e otimizando o uso de recursos.
Outras regiões, outros pescados
Na região Centro-Leste, as pesquisas se concentram na produção de lambari e camarão de água doce, espécies com potencial crescente de mercado e forte inserção na agricultura familiar. Já na região metropolitana do Vale do Paraíba, a unidade de Campos do Jordão mantém, há mais de 60 anos, uma trajetória de destaque nacional na salmonicultura e truticultura, com foco na produção de linhagens melhoradas de trutaarco-íris. A unidade é referência na produção e comercialização de ovos e alevinos, que abastecem produtores de regiões mais frias do Brasil.
O interior de São Paulo tem se consolidado como uma das principais potências aquícolas do país. A tilápia é a espécie mais cultivada, com sistemas baseados em tanques-rede instalados em grandes reservatórios de água, o que garante produtividade e qualidade. Também há espaço para espécies nativas, como lambari, pacu, piava e curimbatá, criadas, principalmente, em tanques escavados em pequenas propriedades, fortalecendo a renda de produtores rurais. De acordo com dados da Peixe BR, a produção paulista em 2024, foi de aproximadamente 87 mil toneladas de tilápia e 3,9 mil toneladas de outras espécies, colocando o Estado como o segundo maior produtor de tilápia do Brasil.
Pesca marítima
No litoral paulista, a pesca marítima também apresenta avanços, com destaque para o programa de monitoramento da atividade pesqueira, coordenado pelo IP. O levantamento fornece dados sobre espécies capturadas, volumes desembarcados e práticas sustentáveis, apoiando políticas públicas de ordenamento e conservação. O litoral abriga ainda fazendas de camarão, que vêm se desenvolvendo com o uso de tecnologias de cultivo mais eficientes e sustentáveis, contribuindo para a diversificação da produção estadual.
Medeiros ressalta a importância do IP em São Paulo e informa: “com essa atuação integrada — da pesquisa científica à extensão produtiva e à comunicação com o consumidor —, o Instituto de Pesca reforça seu papel estratégico no fortalecimento do setor. Suas ações vêm consolidando São Paulo como referência nacional em ciência, inovação e sustentabilidade na aquicultura e na pesca, ampliando as oportunidades de mercado e promovendo a segurança alimentar no país”.

