A charcutaria artesanal transforma tradição em identidade

Beira Mato

Criada em uma fazenda no interior de Minas Gerais, a Beira Mato aposta na criação própria de porcos caipiras, no aproveitamento integral do animal e em métodos artesanais para mostrar que o Brasil também pode produzir salames de identidade única

Por: Erika Ventura


Enquanto a indústria investe em tecnologia, escala e eficiência para atender um mercado cada vez maior, um movimento paralelo tem ganhado força no Brasil: o da charcutaria artesanal. Mais do que produzir embutidos, pequenos fabricantes têm buscado resgatar técnicas tradicionais, valorizar ingredientes regionais e construir uma identidade genuinamente brasileira para produtos como o salame.

É nesse cenário que nasceu a Beira Mato, localizada na zona rural de Formiga (MG). O empreendimento carrega uma história que começa muito antes da inauguração da agroindústria, em 2020.

A fundadora Mariana Ribeiro Teixeira cresceu acompanhando os abates realizados pela família na propriedade dos avós, onde o porco caipira era criado para consumo próprio. Foi ali que teve os primeiros contatos com a charcutaria tradicional mineira, aprendendo a produzir chouriço, banha, torresmo, carne de lata e linguiças.

Apesar de ter deixado a cidade para cursar Estatística e atuar na profissão, a paixão pela charcutaria falou mais alto. Depois de estudar técnicas de defumação e maturação, trabalhar ao lado de um charcuteiro no interior de São Paulo e realizar inúmeros testes, decidiu voltar para Minas Gerais e construir sua própria agroindústria.

“Meu irmão é veterinário e morava com meus avós na roça. Propus que ele criasse porcos caipiras para mim e ele topou imediatamente. No começo de 2020, em março, quando a pandemia se iniciava no Brasil, as obras da minha agroindústria acabaram e a Beira Mato começou a funcionar. A ideia principal da Beira Mato é criar nosso próprio porco, de raças brasileiras, caipiras, e transformar os animais em produtos de charcutaria de alta qualidade. E o principal pra mim é utilizar o animal por inteiro, do focinho ao rabo. Como eu uso o animal de forma integral, acabo tendo um portfólio bem extenso. Eu faço produtos frescos, defumados e maturados”, explica.

Hoje, a Beira Mato produz desde itens frescos e defumados até uma linha completa de maturados, como salames, coppa, lonza, culatello, guanciale e pancetta. O aproveitamento integral da matéria-prima é um dos pilares do negócio e traduz uma filosofia que une respeito ao animal, redução de desperdícios e valorização da tradição.

Ao contrário de muitos empreendimentos que surgem pensando em escala, Mariana afirma que nunca teve a intenção de transformar a produção em um modelo industrial. “A produção artesanal foi minha única opção, nunca houve a intenção de ser industrial. Eu queria ser a charcuteira, produtora, controlar o processo do início ao fim, fazer um produto de forma artesanal preservando métodos tradicionais de produção”.

Essa filosofia aparece diretamente na qualidade dos salames produzidos pela marca. Segundo ela, um dos principais diferenciais está na matéria-prima utilizada e no cuidado empregado durante toda a fabricação. “O primeiro ponto é a qualidade da matéria-prima. A carne dos nossos porcos é muito especial, tem muita qualidade e sabor. Os temperos do salame também são selecionados e de extrema qualidade. O segundo ponto é a forma como o salame é produzido, num processo todo artesanal, feito à mão, um por um”.

Os porcos caipiras permanecem entre 12 e 14 meses na propriedade, recebem alimentação baseada em milho, soja e trigo, complementada por ingredientes disponíveis na fazenda, como abóbora e soro de leite. Além disso, passam parte da criação soltos e vivem em condições de maior conforto.

Embutidos Beira Mato

“Esses fatores, junto ao tempo que o animal demora para chegar no ponto de abate, resultam em uma carcaça com excelente acabamento de gordura e carne extremamente saborosa”, destaca.

Embora a tradição seja o alicerce da produção, a empreendedora acredita que tecnologia e artesanato não são conceitos incompatíveis. Pelo contrário, podem caminhar juntos quando o objetivo é preservar a essência do produto. “Eu acho que a tecnologia deve ser usada sempre que possível para facilitar o processo produtivo e agregar segurança e qualidade ao produto. O método tradicional deve ser usado como guia para manter as características específicas, e a tecnologia deve ser utilizada naquilo que pode agregar qualidade sem descaracterizar o processo produtivo”, ressalta Mariana.

Essa combinação também abre espaço para inovação. Inserida no Cerrado mineiro, a Beira Mato busca explorar ingredientes locais para desenvolver novos sabores e reforçar a identidade regional dos produtos, demonstrando que tradição também pode significar evolução.

Na avaliação da fundadora, o consumidor brasileiro tem mudado sua relação com os embutidos artesanais. “O interesse e a procura por produtos artesanais têm aumentado demais. Tem havido uma valorização crescente de produtos que preservam tradições e buscam formas de produção mais sustentáveis e saudáveis. Eu acho que é um caminho sem volta”.

O reconhecimento nacional veio com a conquista do prêmio de Melhor Salame Artesanal do Brasil, concedido pela CNA, reconhecimento que ampliou significativamente a visibilidade da marca.

“Ganhar o prêmio abriu várias portas e deu uma validação para o trabalho que estávamos fazendo. A procura aumentou muito depois do prêmio e nosso mercado se expandiu”, comemora.

Para o futuro, Mariana enxerga um cenário promissor para a charcutaria brasileira. Apesar dos desafios impostos pela legislação aos pequenos produtores, ela acredita que o país reúne condições para construir uma identidade própria para seus salames. “Temos total capacidade de produzir salames de qualidade com identidade local, que buscam realçar aquilo que tem de melhor no nosso território”, conclui.

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