Reciclar e reusar é preciso

CCD Circula

Por décadas, a prática que predominava no setor produtivo e no consumo seguiu uma sequência linear, que era produzir, usar e descartar. A crescente preocupação com os impactos ambientais desse modelo, especialmente diante do esgotamento de recursos naturais e do acúmulo de materiais como plásticos, papel-cartão, alumínio e vidro em aterros, impulsionou a indústria na busca por alternativas mais sustentáveis

Por: Juçara Pivaro

Nos últimos anos, porém, o conceito de sustentabilidade aplicado às embalagens passou a ir além da simples substituição de materiais ou da redução de gramaturas. A indústria avançou em direção à economia circular, um modelo que busca manter os materiais em uso pelo maior tempo possível e reinseri-los na cadeia produtiva após o consumo.

Nesse novo cenário, fabricantes e fornecedores de embalagens trabalham no desenvolvimento de soluções que favoreçam a recuperação, a separação, a reciclagem dos materiais e a reutilização. 

A transição, entretanto, está longe de ser simples. A implantação de sistemas de economia circular envolve desafios logísticos e tecnológicos, além de questões regulatórias e da necessidade de articulação entre diferentes elos da cadeia. No setor de alimentos, essa complexidade é ainda maior, já que qualquer solução precisa conciliar sustentabilidade com requisitos rigorosos de segurança e proteção dos produtos.

Eloísa Garcia, coordenadora do Ital e pesquisadora responsável pelo CCD Circula
Eloísa Garcia, coordenadora do Ital e pesquisadora responsável pelo CCD Circula

CCD Circula – Ciência como aliada

A busca por soluções para os resíduos pós-consumo vem ganhando espaço na agenda da indústria, impulsionada por novas exigências regulatórias, compromissos ambientais e pela necessidade de tornar as cadeias produtivas mais eficientes. É nesse cenário que atua o Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Soluções para os Resíduos Pós-Consumo: Embalagens e Produtos (CCD Circula), iniciativa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com apoio da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e liderança do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), ligado à Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (Apta) da Secretaria e sediado em Campinas.

Com cinco anos de duração, o projeto reúne cerca de 90 pesquisadores de dez instituições de ensino e pesquisa, além de cinco empresas cofundadoras e 16 apoiadores. A estrutura também conta com a interveniência da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag). O objetivo é aproximar ciência, empresas e poder público na construção de soluções aplicáveis aos desafios da economia circular.

A concepção do CCD Circula começou antes mesmo da aprovação do projeto. Em 2021, pesquisadores do Ital e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) já desenvolviam estudos sobre economia circular. “A economia circular é um tema muito amplo, então elaboramos uma proposta focada em soluções para os resíduos sólidos urbanos e, em função da multidisciplinaridade do tema, fomos buscar parcerias em outras instituições de pesquisa para criarmos uma rede e viabilizar o projeto”, explica Eloísa Garcia, coordenadora do Ital e pesquisadora responsável pelo CCD Circula.

A proposta foi aprovada pela Fapesp em junho de 2022 e, desde então, o centro ampliou substancialmente sua atuação com Ital, FGV, IPT, USP, CNPEM, Senai, UFMS, Unesp, Unicamp e Unoesc integrando a rede de instituições participantes.

Da pesquisa à aplicação

Um dos diferenciais do CCD Circula é a diversidade de competências reunidas em torno do tema. As atividades estão organizadas em cinco plataformas: gestão e inovação para a economia circular nas organizações e cadeias; mitigação do impacto de resíduos orgânicos; design, materiais e tecnologias inovadoras; tecnologias de reuso e reciclagem; e educação e cultura para economia circular.

Atualmente, 17 projetos estão em andamento, em diferentes estágios de desenvolvimento. Mais do que gerar conhecimento científico, a proposta é fazer com que os resultados cheguem ao mercado e à sociedade.

“Estamos trabalhando para fortalecer e impulsionar a divulgação e a transferência dos resultados”, afirma a pesquisadora responsável. Entre as iniciativas, segundo ela, está o desenvolvimento de uma série de jogos sobre economia circular voltada ao ambiente escolar. Após testes em diferentes escolas, a intenção é ampliar sua utilização em redes públicas e, também, em programas privados de educação.

Indústria como parte da solução

A participação empresarial é outro componente importante do CCD Circula. Fabricantes de embalagens e insumos, como Tetra Pak, Sonoco e Braskem, e empresas usuárias de embalagens, como Natura e Grupo Boticário, integram o grupo de cofundadores. Outras companhias colaboram fornecendo amostras, informações e conhecimento para o desenvolvimento das pesquisas. “As empresas estão abertas ao CCD, participando diretamente ou colaborando para o desenvolvimento dos projetos”, informa Eloísa.

A aproximação entre pesquisa e indústria ganha relevância diante do avanço da regulamentação relacionada à economia circular. Em São Paulo, o Programa Integra Resíduos foi instituído em 2024, coordenado pelas secretarias de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística e de Parcerias em Investimentos, incentivando soluções sustentáveis para o manejo de resíduos sólidos urbanos com melhorias em eficiência e governança.

Em nível nacional, foram publicados em 2025 o Plano Nacional de Economia Circular 2025-2034 e novas medidas relacionadas à logística reversa de embalagens plásticas, entre outras iniciativas.

Para o CCD Circula, esse ambiente cria condições favoráveis para transformar pesquisa em soluções práticas. “O momento está muito propício para o sucesso do projeto, pois questões de gestão ambiental, resíduos e circularidade estão na agenda dos governos”, avalia a coordenadora do Ital.

A pesquisadora lembrou que, por enquanto, já existem metas de recuperação de embalagens de plástico pós-consumo e incorporação de resina pós-consumo reciclada (PCR) em novas embalagens e produtos, com regras para comprovação do cumprimento, assim como previsão de pontos de entrega voluntária (PEVs). E está para sair ainda neste ano decreto específico para embalagens celulósicas pós-consumo.

Para a indústria de alimentos e bebidas, que utiliza grandes volumes de embalagens e enfrenta o desafio de conciliar desempenho, segurança, custo e sustentabilidade, a evolução dessas pesquisas pode contribuir para o desenvolvimento de novos materiais, processos de reciclagem e modelos de reuso. A expectativa é que a integração entre pesquisa científica, setor privado e políticas públicas ajude a transformar o resíduo pós-consumo de problema ambiental a oportunidade de inovação e geração de valor.

Compartilhe

Explore nossos conteúdos

CCD Circula
Sustentabilidade

Reciclar e reusar é preciso

Por décadas, a prática que predominava no setor produtivo e no consumo seguiu uma sequência linear, que era produzir, usar e descartar. A crescente preocupação