Com aumento nos custos de produção, mudanças no perfil de consumo e avanço em rastreabilidade e sanidade, a cadeia de proteínas animais vive um momento de ajustes e oportunidades. Para entender o cenário e os pontos de atenção para os próximos meses, conversamos com Rafael Ribeiro, assessor técnico da Comissão Nacional de Bovinocultura de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)
A demanda por carnes de frango e suína aumentou em 2025 no Brasil e a expectativa é de crescimento também em 2026. Segundo dados da Conab, a disponibilidade interna per capita aponta crescimento consistente para as proteínas de frango e suína, enquanto a bovina registra retração.
Em 2024, a disponibilidade de carne bovina foi de 36 kg por habitante/ano. Em 2025, caiu para 35 kg, e a projeção para 2026 é de 32,2 kg. Já o frango deve passar de 49,3 kg (2024) para 51,3 kg em 2026. A suína, por sua vez, deve sair de 19,8 kg para 20,8 kg no mesmo período.
“A demanda por carnes de frango e suína aumentou em 2025 no Brasil e a expectativa é de crescimento também em 2026”, explica Rafael Ribeiro.
No caso do frango, um fator pontual impactou o mercado: a restrição temporária de alguns importadores após o foco de gripe aviária registrado no Rio Grande do Sul, em maio de 2025, elevou momentaneamente a disponibilidade interna e pressionou os preços.
Já na bovinocultura, apesar do aumento nos abates em 2025, o consumo per capita recuou. “As exportações cresceram em volume e absorveram parte do incremento na produção”, pontua Ribeiro. Para 2026, a expectativa é de menor disponibilidade de carne bovina no mercado doméstico, reflexo da redução prevista nos abates após anos de elevado abate de fêmeas.
Eventos como a Copa do Mundo, historicamente associados ao aumento no consumo de proteínas, podem gerar estímulos adicionais ao mercado interno.
Custos de produção: pressão generalizada
Se o consumo apresenta mudanças, os custos seguem como desafio central. De acordo com dados do projeto Campo Futuro (CNA/Senar), 2025 registrou alta expressiva nos custos operacionais efetivos (COE). Na bovinocultura de corte, o aumento foi de 30%. “Pesaram principalmente as despesas com mão de obra, alimentação e reposição dos animais”, detalha Ribeiro.
Para a suinocultura e avicultura, os incrementos no COE foram de 25,6% e 5,6%, respectivamente. Além da mão de obra, pesaram os aumentos nos custos com energia elétrica, insumos para o aquecimento das granjas e manutenção. Nos sistemas independentes , houve aumento também nos preços dos alimentos concentrados , cuja aquisição é feita pelo produtor, diferente dos sistemas integrados, onde a integradora é a responsável pela compra e distribuição aos produtores integradores.
Para 2026, os desafios com relação aos custos de produção das atividades continuam, com destaque para itens como a mão de obra e a alimentação dos animais. Nos casos dos bovinos, com a menor oferta, a tendência é de preços mais altos também para os animais de reposição,o que deve impactar as relações de trocas para os produtores (recriadores/terminadores).
Potencial de mercado: valor agregado e cortes alternativos
A CNA enxerga manutenção dos bons volumes de consumo de frango e suínos em 2026, além de cenário positivo para os ovos. No segmento bovino, a perspectiva de preços mais altos pode alterar o comportamento do consumidor. “Considerando o cenário de alta nos preços, a tendência é de maior procura pelos cortes de dianteiros no mercado doméstico”, afirma Ribeiro.
Esse movimento pode abrir espaço para estratégias de valorização de cortes menos nobres, agregação de valor e desenvolvimento de novos produtos.
Sustentabilidade e sanidade: ativos estratégicos
Ribeiro é categórico ao afirmar que “a pecuária brasileira é sustentável”. O Brasil conta com legislação ambiental robusta, como o Código Florestal, além de crescente adoção de tecnologias em nutrição, genética, sanidade e gestão.
Estudo da Embrapa apresentado na COP 30 aponta que 65,6% do território nacional mantém vegetação nativa preservada, sendo que produtores rurais são responsáveis por 29% dessas áreas dentro das propriedades.
No campo sanitário, o país possui reconhecimento internacional da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como livre de febre aftosa sem vacinação, risco insignificante para encefalopatia espongiforme bovina e ausência de peste suína africana há mais de 40 anos.
Quanto à rastreabilidade, o Brasil avança com o Programa Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB). “O objetivo é passar de uma rastreabilidade por lote para a individual, garantindo maior agilidade nas investigações sanitárias e segurança alimentar”, destaca.
Riscos e oportunidades no horizonte
Para os próximos meses, Ribeiro aponta oportunidades claras no mercado interno, responsável por 60% a 70% da produção nacional. “Há tendência de aumento na procura por produtos que agreguem valor à produção na base e à indústria.”
No cenário internacional, surtos de doenças em outros países podem ampliar oportunidades para as exportações brasileiras.
Entre os pontos de atenção, estão conflitos geopolíticos, volatilidade cambial, barreiras comerciais e avanço do protecionismo. “O desafio é acompanhar esse cenário global com estratégia e competitividade”, conclui.