Jornada 6×1 pode elevar custos e pressionar competitividade dos frigoríficos

Jornada 6x1 pode elevar custos e pressionar competitividade dos frigoríficos

Estrutura de linhas contínuas, margens apertadas e forte exposição ao mercado internacional tornam o setor mais sensível a mudanças estruturais na jornada de trabalho, avalia professor da FIA Business School

Por: Erika Ventura

O debate sobre a possível alteração da jornada de trabalho no modelo 6×1 ganhou força e passou a preocupar setores intensivos em mão de obra, como a agroindústria de proteína animal. Nos frigoríficos, onde as operações funcionam em linhas contínuas e sob rígidos padrões sanitários, a margem para absorver mudanças estruturais é considerada limitada.

Para André Sacconato, professor da FIA Business School, o impacto no setor tende a ser mais intenso do que na média da indústria, justamente pelas características próprias da atividade. “As estimativas que apontam aumento no custo final da produção com a redução da jornada semanal sem ajuste proporcional de salários não podem ser aplicadas de forma direta aos frigoríficos. Isso porque a estrutura operacional do setor é muito diferente da média da indústria”, afirma.

De acordo com Sacconato, mesmo com o avanço da mecanização, os frigoríficos funcionam em linhas contínuas, que exigem equipes completas em todos os turnos. Não há espaço para reduzir ritmo ou redistribuir tarefas sem comprometer eficiência, segurança alimentar e padrões sanitários. Por isso, a diminuição da jornada não pode ser compensada internamente: ela exige reposição integral das horas perdidas, geralmente por meio de novas contratações. Essa necessidade de recomposição integral de horas, explica, faz com que o aumento do custo-hora se propague de forma mais intensa ao longo da estrutura produtiva.

“Embora haja estimativas médias para a indústria, é razoável considerar que, nos frigoríficos, o efeito deva ser superior, devido à combinação de alta dependência de mão de obra, baixa flexibilidade operacional e forte pressão competitiva. É um setor que já opera no limite da eficiência, e qualquer mudança estrutural na jornada tende a gerar repercussões mais amplas do que em outros segmentos,” explica o professor.

Produtividade pode compensar?

Parte do debate público sustenta que jornadas menores poderiam gerar ganhos de produtividade capazes de compensar o aumento do custo da hora trabalhada. Sacconato reconhece que há experiências internacionais nesse sentido, mas ressalta que os resultados não são automaticamente replicáveis. “Há estudos internacionais que mostram uma relação entre a redução da jornada e aumentos de produtividade, mas esses resultados aparecem em contextos muito específicos, tanto do ponto de vista setorial quanto do ponto de vista dos países analisados”. 

Apesar da tecnologia aplicada e processos com automação, o olhar humano continua essencial para o processo produtivo na indústria da carne. “A automação ajuda, mas não resolve. Muitas etapas continuam dependendo de intervenção humana: inspeção, manipulação fina, controle sanitário, acompanhamento das máquinas. A presença humana é indispensável para garantir conformidade regulatória e qualidade do produto. Isso limita a capacidade de absorver o impacto apenas com tecnologia”, detalha o especialista da FIA.

Pressão internacional

O Brasil ocupa posição de destaque no comércio global de proteína animal, competindo diretamente com países como Estados Unidos e Austrália. Nesse cenário, elevação estrutural de custos pode comprometer margens e contratos internacionais.

“Os contratos costumam ser fechados com antecedência, com preços negociados em dólar e prazos rígidos de entrega. Se o custo sobe aqui dentro, mas os concorrentes mantêm sua estrutura estável, o exportador brasileiro acaba absorvendo a diferença na margem,” avalia, e acrescenta, reforçando que mercados como China, Oriente Médio e Sudeste Asiático trabalham com múltiplos fornecedores e mudam rapidamente de origem quando percebem perda de competitividade. “Se o Brasil encarecer sua produção de forma permanente, perde capacidade de disputar preço nesses mercados. Isso pode significar desde renegociação de contratos em condições menos favoráveis à redução de volumes exportados”.

Negociação coletiva como saída

Diante desse quadro, o professor defende que eventuais mudanças na jornada sejam tratadas por meio de negociação coletiva, considerando as especificidades do setor. “O caminho mais equilibrado sempre passa pela negociação coletiva. Esse é o instrumento mais adequado para lidar com realidades produtivas tão distintas, porque permite ajustar regras à dinâmica específica de cada atividade”, conclui. 

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