O Estado, que não é aprovado para mercados como Estados Unidos, Chile, México e União Europeia, será um dos mais afetados com o esgotamento da quota de importações de carne bovina da China
O fim da quota para exportações de carne bovina do Brasil para a China
representa um dos maiores desafios já enfrentados pelo setor, que assistiu a
um crescimento vertiginoso das exportações ano a ano e alcançou recorde
absoluto em 2025, tanto em termos de valor como de volume embarcado. Mas
esse desafio será sentido de forma ainda mais intensa em determinadas
regiões brasileiras. O Pará é um exemplo emblemático dessa situação, uma vez
que o Estado está fora de importantes mercados de carne bovina que poderiam
representar alternativas à China, como é o caso de Estados Unidos, Chile,
México e União Europeia. Esse efeito começou a ser sentido a partir dos
resultados das exportações de julho, que apresentaram queda substancial, já
refletindo o esgotamento da quota chinesa.
Números da Secex, compilados pela Associação Brasileira de Frigoríficos
(ABRAFRIGO) mostram que em julho o Brasil exportou US$ 1,63 bilhão em carne
bovina e derivados, queda de 5,6% em relação a julho do ano anterior, com o
embarque de 308,2 mil toneladas (-16%). Quando se considera apenas a carne
bovina in natura, que representa 91% das receitas com as exportações do
setor, as vendas de julho apresentaram queda de 5,7% em receitas, para US$
1,447 bilhão, e de 17,5% em volume, para 227,89 mil toneladas. Esse
resultado foi fortemente influenciado pela queda nas vendas de carne in
natura para a China, que caíram 39,6% em receitas, para US$ 529,24 milhões,
e 47,8% em volume, para 82,7 mil toneladas.
Com a quota da China para o Brasil praticamente esgotada,
(https://globorural.globo.com/pecuaria/boi/noticia/2026/08/brasil-atinge-90p
ercent-da-cota-de-carne-para-a-china.ghtml), o cenário para os meses
restantes do ano traz preocupações para os exportadores, em especial os que
não dispõem de alternativas relevantes de mercados, como é o caso das
indústrias localizadas no Estado do Pará. O desempenho do Estado, que já era
prejudicado antes da decretação da quota chinesa, deverá ser agravado ainda
mais. Vale ressaltar que, embora o Pará detenha o segundo maior rebanho
bovino do País, com 25,56 milhões de cabeças (atrás apenas de Mato Grosso,
com 32,85 milhões), o Estado é apenas o 4º colocado em abates e o 7º em
exportações de carne bovina, conforme dados levantados pela ABRAFRIGO (vide
tabela abaixo). Isso indica que o desempenho exportador do Pará está muito
aquém do seu potencial, deixando de gerar renda para produtores rurais,
indústrias frigoríficas e outros serviços relacionados, além de perda de
receitas para o Estado e para o País como um todo. Essa situação será ainda
agravada no segundo semestre, com o esgotamento da quota chinesa. Embora
parte da carne que seria vendida à China possa ser redirecionada para outros
destinos ou mesmo para o mercado interno, não há alternativas viáveis para
absorver todo o excedente de produção do segundo maior rebanho bovino do
País. É importante lembrar que o Pará, assim como todo o restante do Brasil,
é livre de febre aftosa sem vacinação, não havendo justificativa técnica ou
sanitária para manter o Estado fora de importantes mercados de exportação. O
Pará precisa ser tratado como prioridade nas negociações com vistas à sua
aprovação para todos os mercados relevantes com os quais o Brasil
comercializa a sua carne.
No acumulado de janeiro a julho de 2026, o Brasil exportou 2,119 milhões de
toneladas de carne bovina e derivados, resultado 3,1% maior do que no mesmo
período de 2025. Em receitas, houve aumento de 26%, para US$ 11,56 bilhões.
O maior importador da carne bovina brasileira continua sendo a China. Nos
primeiros sete meses do ano, os chineses importaram 857,24 mil toneladas,
alta de 8,5%, e pagaram US$ 5,346 bilhões, 30,95% mais. A China respondeu
por 46,26% das receitas de exportações do setor. Considerando apenas a carne
bovina in natura, a China foi responsável por 50,75% das aquisições, em
valor, e 49,76% em volume. Os preços médios da carne destinada à China
passaram de US$ 5.166 por tonelada, em 2025, para US$ 6.238 em 2026, alta de
20,76%, refletindo os aumentos de preços do boi gordo no Brasil.
Os Estados Unidos, segundo maior comprador do Brasil, aumentaram suas
compras de carne bovina in natura em 48%, para US$ 1,276 bilhão, de janeiro
a julho de 2026. Em volume, houve crescimento de 23,9%, para 209,64 mil
toneladas. Os preços médios variaram 19,5%, passando de US$ 5.092 por
tonelada, de janeiro a julho de 2025, para US$ 6.086 no mesmo período deste
ano. Os Estados Unidos continuam com perspectivas bastante favoráveis, tendo
em vista o elevado déficit de abastecimento, estimado em 2,64 milhões de
toneladas em equivalente carcaça para o ano de 2026. Apenas no mês de julho,
as vendas de carne bovina in natura para os Estados Unidos aumentaram 127,7%
em valor, alcançando US$ 160 milhões, e 105,8% em volume, para 26 mil
toneladas. As perspectivas dos Estados Unidos no segundo semestre são ainda
mais promissoras, considerando que recentemente o governo Trump anunciou um
plano para importar 300 mil toneladas de carne bovina livre do imposto de
importação de 26,4%. Ainda não foi publicada a ordem executiva que definirá
os critérios dessas importações, mas a carne brasileira poderá ganhar mais
competitividade e participação no mercado americano caso o Brasil seja
contemplado na medida. O aumento das vendas para os Estados Unidos, assim
como para outros mercados, compensa em parte os efeitos provocados pelo fim
da quota chinesa. Mas novamente é preciso lembrar que o Pará e outros
estados brasileiros não se beneficiarão dessas oportunidades, em função de
restrições comerciais.
Na sequência dos maiores importadores da carne bovina in natura do Brasil
estão Chile e União Europeia. O Chile aumentou suas compras para US$ 539
milhões de janeiro a julho de 2026, alta de 45,86% sobre o mesmo período do
ano anterior. Em volume, houve crescimento de 30,64%, para 88,9 mil
toneladas. Para a União Europeia houve crescimento de 21,8% em valor, para
US$ 480,4 milhões, e de 9% em volume, para 52,4 mil toneladas. Os preços
médios de venda para a União Europeia subiram 11,7% no período comparativo,
para US$ 9.163 por tonelada. A União Europeia também é causa de preocupações
no setor, uma vez que o Brasil poderá ficar fora daquele mercado a partir do
mês de setembro próximo, em função das dificuldades em se chegar a um
consenso nas negociações relacionadas com a certificação de produção livre
de antimicrobianos (exigência do mercado europeu). A Rússia, quinto maior
destino de exportações da carne bovina brasileira, aumentou suas compras em
43,83% em valor, para US$ 317,4 milhões, e 31% em volume, para 62,34 mil
toneladas.
Apesar de todo o esforço que vem sendo feito para ampliação de mercados para
a carne bovina brasileira, é preciso lembrar que o setor ainda possui uma
elevada dependência em poucos mercados. No período de janeiro a julho de
2026, os 5 maiores importadores, China, Estados Unidos, Chile, União
Europeia e Rússia foram responsáveis por aquisições de US$ 7,957 bilhões,
que representaram 75,56% das exportações de carne bovina in natura. Em
volume, esses mercados absorveram 1,27 milhão de toneladas, ou 73,4%. Essa
elevada concentração é especialmente preocupante em um cenário de
agravamento dos problemas geopolíticos atuais, como as guerras e as disputas
tarifárias, que causam aumentos de custos e instabilidades no mercado,
afetando especialmente os produtores dos estados que, além de tudo, ainda
sofrem com barreiras comerciais.
No total de janeiro a julho, 116 países aumentaram suas compras enquanto
outros 60 reduziram suas importações.

